Ao se fazer uma simples busca no Google sobre Neogeography, o usuário se defrontará com um resultado de aproximadamente 36.000 ocorrências. Descontando-se fatores como indexação e relevância tÃpico de cada engine de busca que pode apresentar mais ou menos resultados, o número realmente surpreende e suscinta alguns "elementos ocultos" que a mera vã filosofia não poderia captar e sobre a qual a esmiuçaremos ao longo desse artigo
Pois bem, amarrando o nosso jegue no pau e analisando superficialmente alguns elementos do termo, temos que: 1) O termo existe há pouco tempo (sua primeira ocorrência data de 2005). 2) Neogeografia não é uma ciência. 3) Não é derivada da Geografia. 4) Não é um "braço light" da Geotecnologia. 5) Nasceu e preconizou o boom dos mapas online. Colocando tudo no liquidificador, o que nos resta é o óbvio: Neogeografia é um comportamento de compartilhamento de dados georreferenciados, ligado principalmente a mapas online, restrito a um ambiente chamado Web.
O ponto de partida para se buscar uma visão global e um coerente entendimento do que se pretende com o título aí em cima é entender que tudo isso é conseqüência direta de duas coisas: Ambiente e Ponto de saturação. A primeira se faz presente e a vivenciamos (Web 2.0) e a segunda está relacionada com o ponto de maturação que as geotecnologias atingiram nos dias atuais.
Obviamente que você já ouviu falar em algum canto escuro da internet sobre Web 2.0. O termo esta cada vez mais em voga, apesar de seu significado ainda ser meio nebuloso e despertar discussões pra lá de acaloradas. Quanto mais difundida e popular o termo fica, mais difícil fica em definir seus limites pois a Web é dinâmica e complexa para entendê-la.
Web 2.0 é um termo que foi cunhado por Tim O´Reilly, fundador da editora O´Reilly, e se refere a uma suposta segunda geração de serviços para internet. É comumente definida como um comportamento que serve para designar uma nova visão como a Internet é encarada, como uma plataforma de serviços, de conteúdo, de propaganda, de comunicação, etc, e não somente uma mera rede de computadores.
Alguns especialistas em tecnologia alegam que o termo carece de sentido pois a Web 2.0 utiliza muitos componentes tecnológicos criados antes mesmo do surgimento da Web. Outros ainda reforçam essa mesma linha de raciocínio alegando que não tivemos um Geoprocessamento 2.0 ou uma Idade Média 3.0 ou se em plena Revolução Francesa as pessoas discutiam o que era a revolução e quais os períodos irião fazer parte da historia moderna.
Não, não é nada disso. A questão é que Tim O’Reilly tratou a Web sobre um ponto de vista da programação, como um sistema do que propriamente como conteúdo e elencou alguns elementos evidentes. É simplesmente um termo.
Como toda classificação histórica, não se pode dizer exatamente quando termina ou começa este período. Mas a observação desses padrões adquire um status saudável a partir do momento que ela serve para organizar conceitos e idéias em um ambiente dinâmico. O fato é que não existe consenso sobre o que é esse termo é ainda estamos moldando o que é essa tal de Web 2.0. No entanto, dada sua complexidade, parece inevitável não rotulá-la para fins "didáticos". É assim que devemos entender Web 2.0.
O Meme abaixo é a representação da Web 2.0 e os seus elementos. Ele faz parte do artigo do Oreilly que foi publicado em setembro de 2005 e que desencadeou todo esse “hype” e contrasenso sobre o termo.

Em linhas gerais a Web 2.0 se caracteriza por:
Diante do quadro exposto acima, fica mais fácil entender onde a Neogeografia encontrou substrato para se desenvolver. E é esse o backbone para entendermos o que está por trás de todo esse conceito. Não se pode falar em Neogeografia sem Web 2.0
O termo foi cunhado pela americana Di-Ann Eisnor que retornou aos Estados Unidos após morar um tempo em Amsterdan, Holanda. Ela começou a estudar uma maneira de disponibilizar para seus amigos os lugares interessantes que havia marcado em seus mapas e roteiros turísticos dos lugares que visitou na Holanda. Junto com o amigo Jack Olsen, eles pensaram em criar um serviço que consistia em compartilhar dados georreferenciados e mapas de forma permanente. E assim nasceu o website Platial que hoje é uma espécie de rede social de compartilhamento de mapas.
Di-Ann se referiu a esse tipo de comportamento como Neogeografia que até então consistia em uma fusão de dados e experiências do usuário com mapas online. O termo se manteve perdido e ficou no esquecimento por um tempo pela Web, mas o Platial havia alcançado seu objetivo de criar um sistema para Web. O Platial surge exatamente num momento que se inicia uma nova era dos mapas online, marcado pelo lançamento do Google Maps que jogou para escanteio os mapas estáticos. Enfim, agora os mapas podem ser dinâmicos.
Em 2006, Andrew J. Turner escreve o e-book Introduction to Neogeography que elucida todo mistério que havia por trás do termo. Agora a Neogeografia tinha uma "feição" que explicava em linhas gerais aquele boom de procura e compartilhamento de mapas online. Ele definiu Neogeografia como sendo um conjunto de técnicas e ferramentas que lidam com dados espaciais, mas que não se encaixam no mesmo nível de complexidade das utilizadas pelas Geotecnologias. O prefixo “neo” não se refere a uma “nova Geografia” ou uma nova ciência derivada da Geografia como se poderia pensar, mas se refere tão somente como essa nova Geografia é usada e dissipada atualmente por usuários comuns e não profissionais, sobretudo num ambiente de Web.
O aumento de ferramentas para criação e compartilhamento de mapas e locais aliados à necessidade crescente por informações espaciais, fez com que a função “espacial” da geografia fosse dinamizada e adquirisse um novo uso para usuários comuns dentro na Internet.
E quem seriam esses usuários da Neogeografia? Como uma imagem vale mais do que mil palavras, as figuras abaixo esclarecem o perfil de quem estamos falando :

Atualmente a Neogeografia tem buscado técnicas da Geotecnologia para o desenvolvimento de suas próprias ferramentas e serviços para uários e desenvolvedores, mas não se pode classificá-las como sendo um "braço light" da Geotecnologia como foi mencionado no começo. Alguns entusiastas têm chamado esta revolução de cartografia eletrônica devido a quantidade de ferramentas disponíveis e a facilidade de manipulação das mesmas sem forçar o usuário a ter conhecimentos mais técnicos. No entanto, conceitos como Sistemas de Referência, Geocodificação, Projeção, Sistema UTM, Distância Geodésica, Elipsóide, Sistemas de Coordenadas e outros mais estão se tornando parte integrante do vocabulário desses usuários.
Exportar um shape do ArcGIS para KML. Se você reparar na complexidade dessa tarefa, talvez você entenda qual o tipo de usuário que se encaixa dentro da Neogeografia. Obviamente que nem todos Neogeógrafos trabalham com um software como o ArcGIS e nem se atentam para o fato de que antes de exportar o shape é necessário definir/verificar o sistema de projeção e o sistema de referência. Mas a questão não é essa.
O fato é que usuários estão fazendo uso de ferramentas dessa envergadura (ou com funções semelhantes) que até então eram de domínio de profissionais capacitados. Como se pode ver na imagem anterior, não causa estranheza perceber que o médico (poderia ser um arquiteto, policial, bombeiro, advogado, etc) tenha grande probabilidade de compartilhar com os seus colegas locais epidemiológicos da ocorrência de uma determinada bactéria, por exemplo. E se trocássemos o plano de fundo e o inseríssemos esse doutor dentro de um blog pessoal?
Então, esse universo compõe-se desde usuários comuns que necessitam localizar serviços em mapas, a “usuários avançados” e desenvolvedores. E é aí, onde se percebe o limite da Neogegrafia, que a Geotecnologia parece oferecer auxílio ferramental e teórico. Não necessariamente na mesma linguagem que esta a faz com profissionais de GIS, mas em outro formato.
O amadurecimento (e barateamento) das Geotecnologias se mostrou como um elemento catalisador durante a evolução da Neogeografia. Isso talvez fique mais claro se observamos o Modelo de Crescimento de Nolan (publicado pela primeira vez por Davis e Ohlsen para o mercado de TI em 1987) e posteriormente alterada por Hans Bestebreurtje em 1997 em sua tese de mestrado sobre Gerenciamento de Projetos SIG.
O modelo mostrado abaixo apresenta quatro fases de crescimento de um produto que Hans usou para entender o clico de informação de um projeto de SIG. Essas quatro fases do crescimento se aplicam a qualquer tecnologia ou produto. Quando a tecnologia/produto atinge um nível de saturação, ela se move para o segundo plano e torna-se aceitável para as massas e consegue atingir o mais baixo nível. É então nesse ponto que novas soluções/inovações começam a aparecer.

Dr Satyaprakash aponta em Neogeography: Goodbye to GIS? que o ponto de saturação das geotecnologias proporcionou à Neogeografia mais proximidade e consistência para estruturar sua “base ferramental”. Obviamente que esse ponto de saturação não chegou em todas partes do mundo de maneira equânime, mas é evidente que estas tecnologias se fazem cada vez mais presente no "baixo nível".
Até que ponto a Neogeografia ameaça ou contribui para o mercado de Geotecnologias? Talvez a melhor resposta para isso seja dada por duas palavras: intersecção e confluência. Se por um lado a Neogeografia busca por ferramentas e maneiras mais simples e (ao mesmo tempo) sofisticadas de apresentar dados geográficos na Web, recorrendo, quando possível, às ferramentas de geotecnologias, do outro lado percebe-se que o mercado das Geotecnologias tem aprendido, incorporado e utilizado em suas soluções comportamentos e modelos de ferramentas típicas voltadas para Neogeógrafos. Basta dar uma sapiada em algumas soluções que alguns grandes players como ESRI, LEICA, Autodesk andam disponibilizando por aà tais como APIs, Messengers integrados, ferramentas de conversão de formatos, globos virtuais, etc.
Essa última colocação "a Geotecnologia enxergando a Neogeografia" do parágrafo anterior, talvez possa ser percebida se você obsevar o que aconteceu com os grandes portais de notícias ou os websites de grandes empresas que passaram a aglutinar elementos de blogs, wikis, etc, para se aproximar do usuário/consumidor.
Muitas empresas estão acordando e respondendo a essa necessidade de dados geográficos para a Web. Elas estão colaborando para que os dados possam ser melhor apresentados e mais fácies de serem manipulados. O resultado, somando-se a outras ferramentas livres e Open Source, é uma explosáo de serviços e aplicações que se multiplicam numa progressão geométrica. Quer maior exemplo que a Where 2.0, evento que personifica todo esse universo da GeoWeb?
Diante desse contexto traçado até aqui e atualizando o diagrama de David G. Smith, a relação entre Neogeografia e Geotecnologias possa ser representada da seguinte forma:

Vou deixar duas expressões que talvez possam finalizar (ou extrapolar) nossas reflexões sobre Neogeografia e Geotecnologia: "GIS for the Masses" e "GIS is Dead". O rei está nu.
Aparecido Leite é graduado em Engenharia Cartográfica desde 2005 pela Universidade Estadual Paulista (UNESP)/SP. Mora atualmente em Guarulhos/SP e é Web Writer focado em Geotecnologias e GeoWeb. Trabalha com PHP, WordPress, CSS, Tableless, documentação para SIG e gasta boa parte de suas madrugadas mexendo com Python, GeoDjango, Google Maps API, Virtual Earth SDK, KML e qualquer coisa relacionada a Web Mapping, Neogeografia e SIG.
bom assunto, para quem trabalha com cartografia, refletir.
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Muito bom artigo! Gostei da estrutura e da sequência do texto, leva ao leitor quase que de mão dada para perceber todas estas questões que hoje em dia estão a dar muito que falar…
parabéns e cumprimentos!